Riscos de intoxicação nas operações de controle de incêndios

Irei iniciar uma série de posts versando sobre proteção nas fases de atendimento e resposta a emergência, tanto sob o ponto de vista dos procedimentos e protocolos quanto da utilização de proteção individual.

Para iniciar resolvi abordar sob a ótica da toxicologia os riscos de intoxicação mais comuns que podem estar expostos os respondedores de emergência (bombeiros, brigadistas e profissionais de SST) quando das operações de controle de incêndio.

Um dos agentes mais comuns de encontrarmos em incêndios, sobretudo nos interiores (incêndios estruturais) é a fumaça, que podemos definir como uma mistura de gases, vapores e partículas sólidas finamente divididas transportadas pelo ar e por gases e vapores desprendidos dos materiais que queimam, sendo que sua composição química é muito complexa da mesma forma que seu mecanismo de formação.

O Manual de Fundamentos da Luta contra o Fogo da IFSTA (International Fire Service Training Association) diz que efeitos fisiológicos relativos a redução do oxigênio (hipóxia) pode gerar aumento do ritmo ventilatório (respiração), dificuldade e/ou falta de coordenação, dores de cabeça, sensação de fadiga, náuseas, inconsciência, podendo levar até ao óbito em virtude de parada respiratória e insuficiência cardiovascular.

Tabela 1 – Efeitos Fisiológicos pela redução de O2 (hipóxia)

Oxigênio no ar (%)Sinais e Sintomas
21Nenhum, condições normais.
17Aumento do ritmo ventilatório e algum dando muscular em relação a coordenação motora
12Dor de cabeça, náuseas e fadiga
9Inconsciência
6Morte em poucos minutos por falha respiratória insuficiência cardíaca.
Fonte: Manual de Fundamentos da Luta contra o Fogo (2002)

Podemos afirmar que a fumaça, incluindo os demais gases tóxicos representam a principal causa de mortes em incêndios, sendo responsável por cerca de 50 a 75% dos óbitos. Os gases tóxicos que podem ser gerados em um incêndio variam muito, levando em consideração ainda fatores como a natureza do combustível, a taxa de calor, a velocidade de aquecimento, a temperatura dos gases desprendidos bem como a as concentrações de oxigênio no ambiente.

Desta forma os profissionais de resposta à emergência que venham a trabalhar em locais onde possa existir a deficiência de oxigênio e/ou presença de substâncias tóxicas, presença de gases, materiais particulados em suspensão no ar ou mesmo a variação da concentração de oxigênio, devem obrigatoriamente fazer uso do equipamento de proteção respiratória que forneça a adequada proteção em termos de suprimento de ar para as operações a serem realizadas, devendo ainda ser observado aspectos relativo a indicação adequada, tais como:

  • Presença e percentual de oxigênio no ambiente;
  • Existência de contaminantes, classe toxicológica e se possível verificar as concentrações;
  • Questões de confinamento de ambiente (incêndio urbano e em espaços confinados), arranjo físico, dificuldade de locomoção e mobilidade e tempo de faina.

Devemos lembrar que caso haja dúvidas ou desconhecimento do grau de exposição e/ou contaminação que pode estar exposto o profissional, deverá sempre ser indicado a proteção máxima aparelho (máscara) autônomo de respiração, com pressão positiva (PA ou SBCA – Self Contained Breathing Apparatus), não devendo ser esquecido que mesmo que seja possível realizar o combate sem o uso do EPR adequado, ressaltamos que alguns tipos de lesão, como a respiratória por inalação da fumaça, podem manifestar-se horas ou dias após o evento, podendo causar danos irreversíveis ao respondedor.

A composição química da fumaça é muito complexa e variável já que conforme dissemos sua composição é influenciada por diversos fatores dentre eles composição química do(s) material(ais) em combustão, oxigenação e nível de energia (calor) no processo, por isso podemos dizer que a toxicidade da fumaça depende das substâncias que a compõe, sendo uma das mais comuns o monóxido de carbono (CO) que é encontrado em todos os incêndios e é resultado da combustão incompleta dos materiais combustíveis a base de carbono, como a madeira, tecidos, plásticos, líquidos inflamáveis, gases combustíveis, etc. O efeito tóxico deste contaminante é a asfixia bioquímica, pois ele substitui o oxigênio no processo de oxigenação efetuado pela hemoglobina. Sabemos que a anóxia produzida pelo monóxido de carbono não cessa pela inalação do ar puro, como no caso dos asfixiantes simples.

Outro agente que representa risco significativo nos incêndios é o gás cianídrico (cianeto ou cianureto de hidrogênio) o qual é produzido quando em presença de materiais que contenham nitrogênio em sua estrutura molecular e que sofrem decomposição pelo calor, sendo os mais comuns de produzirem gás cianídrico na sua queima a seda, náilon, poliuretano, acrilonitrila, butadieno e estireno. Esse agente (gás cianídrico) bem como outros compostos cianógenos tem a capacidade de bloquear a atividade de todas as formas de seres vivos, exercendo uma ação inibidora de oxigenação nas células vivas do corpo. Podemos ainda encontrar em incêndios os óxidos de nitrogênio (NOx) representados por uma grande variedade de óxidos, sendo as duas formas mais comuns o monóxido de dinitrogênio (N2O), óxido de nitrogênio (NO) e o dióxido de nitrogênio (NO2). Esses contaminantes são da família dos irritantes, mas tornam-se anestésicos e atacam particularmente o aparelho respiratório, podendo formar os ácidos nitroso e nítrico, em contato com a umidade da mucosa. Esses óxidos são produzidos, principalmente, pela queima de nitrato de celulose e decomposição dos nitratos inorgânicos.

DIFICULDADES QUANTO A PROTEÇÃO RESPIRATÓRIA EM OCORRÊNCIAS COM PRESENÇA DE FUMAÇA

Um complicador observado nas operações de combate a incêndio em ambientes com presença de fumaça e demais contaminantes tóxicos, é relativo à autonomia dos equipamentos de proteção respiratória (máscaras autônomas), uma vez que o controle da emergência muitas vezes exige tempo superior a autonomia do equipamento, necessitando desta forma a troca de cilindros, e somos sabedores que em algumas corporações de bombeiros e empresas há poucos equipamentos reservas e alguns não contam nem como compressores para realizar a recarga dos cilindros, tendo que serem enviados a outras localidades, prejudicando desta forma a adequada resposta.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelo exposto anteriormente, concluímos que se não dispormos do adequado aparato de proteção respiratória, a operação de combate a incêndio, que já é perigosa, pode trazer graves riscos aos respondedores, uma vez que o grau de tolerância do homem para exposição a gases tóxicos, fumaças, vapores, partículas ou ainda a deficiência de oxigênio, é bem limitado, e algumas substâncias podem prejudicar ou mesmo destruir partes do trato respiratório, outras podem ser absorvidas pela corrente sanguínea gerando danos aos demais órgãos do corpo humano. Por isso reforçamos que quando não houver procedimento operacional ou não puderem serem avaliadas as condicionantes para indicar a adequada proteção respiratória, for o contaminante ou sua concentração desconhecida ou apresentar ainda concentração IPVS (Imediatamente Perigosa à Vida e à Saúde) deverá ser utilizado obrigatoriamente aparelho (máscara) autônomo de respiração, com pressão positiva (PA ou SBCA – Self Contained Breathing Apparatus).

Não podemos esquecer que sempre que indicarmos um respirador com o suprimento de ar, deve sempre ser considerada a distância que o trabalhador precisará percorrer até alcançar uma área não contaminada, devendo também ser considerado os obstáculos e os equipamentos que se encontram na área, tendo em vista a autonomia do sistema varia de acordo com o volume do cilindro, pressão de recarga, nível de treinamento e condições físicas do respondedor, além de claro do nível do esforço físico desenvolvido pelo combatente em relação a carga de trabalho executada.

E falando em Proteção Respiratória, não devemos esquecer que devem ser elaborados e implementados procedimentos que definam estratégias e metodologias para uso, manuseio, limpeza, higienização, manutenção e mecanismos que visem manter os equipamentos sempre operacionais e em condições de uso. A manutenção dos equipamentos de proteção respiratória deve ser programada de acordo com o tipo de uso.

Os equipamentos empregados para uso individual e rotineiro devem possuir um programa de manutenção diferente dos equipamentos destinados ao atendimento de emergências. Embora os programas sejam diferenciados, possuem o mesmo nível de importância, tendo em vista os fins a que se destinam.

Bibliografia Consultada:

Corpo de Bombeiros da PMESP. Manual de Fundamentos do Corpo de Bombeiros, Volumes 1, 5, 6, 8, 9, 12 e 14. São Paulo: 1996.

IFSTA. Essencials of fire fighting, 7ed. Oklahoma State University, 2003

KLAENE, Bernard J. e SANDRES, Russel E. Structural Fire Fighting. Quincy: National Fire Protection Association, 2000.

STEWARD, P.D.C., Dust and Smoke Explosions. NFPA, Quarterly 7, 1914.


O blog Emergência em Pauta trata do gerenciamento de emergências e segurança contra Incêndio e Pânico. O autor do blog é Marco Aurélio Nunes da Rocha, Técnico em Segurança e em Emergências Médicas. Graduado em Segurança e Pós-Graduado em Gerenciamento de Emergências e Desastres, em Segurança e Higiene Ocupacional, em Toxicologia Geral e em Segurança contra Incêndio e Pânico. Especialista em Urgência e Emergência Pré-hospitalar. Professor de cursos de Pós-Graduação de Engenharia de Segurança do Trabalho, Engenharia de Prevenção e Combate a Incêndios, Defesa Civil, Gestão de Emergências e Desastres e em APH Tático. Membro da International Association of Emergency Managers (AEM/USA). Diretor do SINDITEST/RS.
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