Crédito: Cristiano Machado - Imprensa MG

Por Paula Barcellos/Jornalista da Revista Emergência

O mês de janeiro, o que era para ser um momento marcado por alegria e descontração se tornou um momento de pânico e tristeza. No início da tarde de sábado, 8 de janeiro, um dia chuvoso na região Centro-Oeste de Minas Gerais, uma rocha se desprendeu de um cânion localizado em um reservatório de Furnas, em Capitólio, e atingiu a embarcação chamada “Jesus”, na qual estavam dez pessoas. Todas morreram e 27 pessoas de outras lanchas ficaram feridas. A região tem intensa atividade turística e várias lanchas percorrem trechos paradisíacos com turistas a bordo.

A tragédia apontou para questões importantes como o turismo seguro no Brasil. Para ofundador do Mestrado em Defesa e Segurança Civil e Professor Titular da UFF (Universidade Federal Fluminense), Airton Bodstein, a prevenção no turismo, assim como em outras áreas, é preocupante e avalia que acidentes como o de Capitólio são passíveis de acontecer em outras áreas turísticas do país.  “As pessoas precisam ser educadas para fazer planejamento e gestão de riscos nas suas vidas como um todo e não somente nas viagens de férias ou atividades de lazer. As mudanças climáticas já chegaram, não é futuro, e as pessoas não mudaram de comportamento frente a elas. Uma ida à escola, ao trabalho ou para fazer compras, em alguns momentos de chuvas intensas, com raios e ventos fortes, podem apresentar sérios riscos a qualquer pessoa não preparada nos dias de hoje. Então, uma cultura de percepção de riscos individual ou de autoproteção, consolidada na população brasileira, reduziria em muito as perdas de vidas por desastre de qualquer natureza. Mas esse processo é lento, talvez algumas décadas, mas é preciso começar urgentemente”, sinaliza. O blog Proteja-se, assinado pelo professor Airton, e publicado no site da Revista Emergência traz mais considerações do especialista sobre a tragédia. Veja aqui.

CUIDADOS

Em entrevista à Revista Emergência, o geólogo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas), Marcelo Gramani explica que situações como de Capitólio não são tão comuns quando comparados a outros fenômenos naturais, mas podem atingir de forma grave populações despreparadas. “Os tombamentos de paredões rochosos ocorrem de maneira natural. Essas movimentações não são tão comuns, quando comparadas com as enchentes e inundações nas calhas dos rios e com os escorregamentos em áreas com topografia acidentada, processos que ocorrem todos os anos. Para que ocorram essas movimentações em paredões rochosos, uma série de fatores, internos e externos, precisam ser combinados. Estes fatores estão relacionados com a história da formação geológica dos maciços rochosos. A depender da origem da rocha poderemos ter diversas situações que irão interferir na resistência, na deformação e na permeabilidade destes maciços. Em paredões rochosos, erosão na base, aberturas de fraturas ou fendas, intensa percolação de água, acúmulos de água, preenchimentos de solo nas fraturas, podem se tornar fatores agravantes. Por outro lado, intervenções humanas podem e, geralmente, potencializam estas ocorrências. Para exemplificar, mudanças do nível de água e ondas geradas em reservatórios podem acelerar os processos erosivos na base dos paredões e falésias. Os fenômenos naturais podem resultar em acidentes ou desastres a partir da vulnerabilidade da sociedade e ausência de preparação”, alerta Gramani.

Crédito: Cristiano Machado – Imprensa MG

Segundo ele, como os cenários naturais podem apresentar riscos geológicos, diversos cuidados devem ser tomados nestes locais. “Os cenários naturais podem, muitas vezes, apresentar alguns perigos de origem geológica para os frequentadores. Grutas e cavernas, cachoeiras, paredes rochosas, vales de rios encaixados e encostas montanhosas compreendem os cenários mais comuns para ocorrência de graves acidentes. Ter um bom mapa de perigos, que identifique a tipologia dos fenômenos e aponte onde, quando e de que forma eles ocorrem é um bom início para um plano de gestão de riscos. Por meio da análise geológica é possível propor medidas e planos para mitigação dos impactos e preparar as pessoas para eventuais situações de emergência. É a partir desta análise que serão mensurados os indicadores de superfície e/ou sinais superficiais típicos de movimentações que poderão auxiliar na tomada de decisão. Treinamento e capacitação dos envolvidos (agentes do poder público, administradores dos pontos turísticos, guias e a sociedade) é fundamental para o sucesso dos planos”, avalia o geólogo.

Em entrevista ao Portal G1 o porta-voz do CBMMG (Corpo de Bombeiros de Minas Gerais), Pedro Aihara, explicou que a formação rochosa do local é do tipo sedimentar, o que torna as estruturas dos paredões frágeis, e a quantidade de chuvas agravou a situação por acelerar a erosão. “A gente tem uma formação rochosa que é basicamente composta por rochas sedimentares, então são rochas que naturalmente têm uma resistência muito menor à atuação dos ventos, da água, dos elementos naturais que atuam sobre a região”, explicou Aihara ao portal. Também em entrevista ao G1, o especialista em Gerenciamento de Risco, Gustavo Cunha Melo, diz que a rocha se desprenderia de qualquer jeito por causa da erosão e, neste caso, o gerenciamento de risco consiste emisolar o local.

RESPONSABILIDADES

Um dia após o acidente, o prefeito de Capitólio, Cristiano Geraldo da Silva, afirmou em coletiva de imprensa, que nunca havia ocorrido nenhum acidente como esse e, por isso, até então, não havia um estudo ou análise geológica por parte da Prefeitura. “Ressaltamos nosso compromisso com a segurança e desenvolvimento do turismo sustentável em nossa região, o qual já vem sendo trabalhado com total seriedade por toda nossa equipe de colaboradores, que diante do desastre natural ocorrido, está se empenhando ainda mais para termos maior segurança ao recebermos nossos turistas e também capitolinos que desenvolvem suas atividades econômicas e de lazer em nossos principais pontos turísticos”, cita a nota da Prefeitura em 13 de janeiro. Também em coletiva de imprensa, no dia 10 de janeiro, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema, atribuiu ineditismo ao fato.

A região nunca foi acometida no passado com fato semelhante. Sabemos a partir de agora que é uma região sujeita a riscos e que vai precisar de análise de geólogos. Turismo com segurança, é possível sim”, destaca.

O acidente ocorreu em um lago da hidrelétrica de Furnas, porém a empresa esclarece que não é responsável pelo turismo na região. “Furnas lamenta profundamente o acidente ocorrido no sábado (8/1) na localidade conhecida como Cânion de Furnas, em Capitólio (MG), e se solidariza com as vítimas e seus familiares. A empresa esclarece que utiliza a água do lago para a geração de energia elétrica, por meio de Contrato de Concessão de Geração de Serviço Público, e que compete aos respectivos poderes públicos a gestão dos demais usos múltiplos do reservatório, dentre os quais as atividades econômicas de turismo profissional”, diz a empresa em seu site.

Sobre as responsabilidades da União acerca da área onde ocorreu a tragédia, ao Portal G1 o Ministério do Desenvolvimento Regional respondeu que todo ambiente é sujeito a riscos e mapeamentos de prevenção deve ser feito quando a probabilidade é importante; a responsabilidade deste levantamento seria do Município. “Todo ambiente é sujeito a riscos. Geralmente, o mapeamento de riscos para efeitos de prevenção e mitigação de desastres deve ser feito quando a probabilidade é importante. A responsabilidade de mapear os riscos no território é do município. A União e os Estados apoiam quando solicitados e quando a capacidade extrapola a do município. A Polícia Civil de Minas Gerais e a Marinha, órgãos vocacionados pela apuração das condições do acidente é que indicarão se eventos anteriores denotavam a necessidade do mapeamento de riscos e do estabelecimento de perímetros para evitar a exposição de pessoas. Com isso, os responsáveis poderão ser identificados”, comunicou ao G1.

Crédito: Cristiano Machado – Imprensa MG

Conforme o Portal G1, desde 2020 a Marinha do Brasil conta com um ponto de atuação em Capitólio. Desde então, realiza fiscalizações que se limitam a averiguar embarcações e condutores. Em nota de 8 de janeiro, a Marinha informa que: “O Inquérito aberto para apurar as circunstâncias do acidente/fato ocorrido analisará os aspectos sobre a segurança da navegação, a habilitação dos condutores envolvidos, o ordenamento aquaviário do local e a observância das normas e legislações emanadas pela Autoridade Marítima”. Além da Marinha, investigações sobre o ocorrido estão a cargo da Polícia Civil e Ministério Público. O foco é tentar entender o que provocou o deslocamento da rocha e, principalmente, se era possível ter previsto a tragédia.

MEDIDAS

Após a tragédia, o Ministério do Turismo determinou que os estados realizem um levantamento dos destinos turísticos do país que apresentam risco de incidentes geológicos. A medida foi acertada durante reunião, por videoconferência, do ministro do Turismo, Gilson Machado, com integrantes do Fornatur (Fórum Nacional dos Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo). A ideia é que após esse levantamento, avaliações geológicas sejam feitas nas áreas para estabelecer novos parâmetros de prevenção.  O Brasil possui milhares de cachoeiras, cavernas, cânions, falésias, praias, trilhas em montanhas e outros destinos turísticos que podem apresentar risco de ocorrências geológicas.

Em nota, a Febrageo (Federação Brasileira de Geólogos) defendeu uma nova abordagem em áreas turísticas de risco para que acidentes como esse sejam evitados. Para a Febrageo há uma “necessidade urgente” de incluir na Lei 12.608/2012 dispositivos mais claros e específicos para o mapeamento e prevenção de riscos em áreas turísticas. A Lei foi aprovada um ano depois das enchentes e deslizamentos de terra ocorridos na Região Serrana do Rio de Janeiro, resultando em mais de 900 mortes, e teve como foco principal a adoção de medidas para áreas de risco em áreas urbanas. A entidade também cobra a retomada de investimentos, por parte do Governo Federal, em mapeamento, prevenção e controle de riscos naturais no Brasil.

O ACIDENTE

Vídeos que circulam pela internet mostram o momento do acidente. Inicialmente algumas pedras rolam cânion abaixo e ocupantes de lanchas mais distantes começam a gritar para que as lanchas posicionadas logo abaixo do cânion, saiam de lá. É quando uma grande rocha se desprende e desaba sobre a água, atingindo diretamente uma lancha e matando os dez ocupantes. Outras embarcações próximas conseguem se afastar, ainda assim os ocupantes são atingidos e têm apenas ferimentos.

Desde o acidente, ocorrido entre 12h e 13h do dia 8 (sábado), o Corpo de Bombeiros e Marinha do Brasil, iniciaram as buscas pelas vítimas. Oito corpos foram localizados no mesmo dia do acidente, os dois últimos foram encontrados na segunda-feira (9). As buscas seguiram sendo realizadas até o dia 11 (terça-feira), quando foi definida, entre a Polícia Civil e os militares, a suspensão das buscas pelos fragmentos.

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